Memórias de Celuloide: A Nostalgia dos “Filmes de Pai” e o Canto da Sereia do Soho

Assistir a filmes com os pais é, para muita gente, um daqueles ritos de passagem que ficam gravados no DNA. Crescendo, minhas férias de verão eram marcadas por verdadeiras maratonas no frescor do porão de casa naqueles dias insuportavelmente quentes. A gente engatava filmes tão longos que, na época, precisavam estar divididos em duas fitas VHS. Eram épicos como A Noviça Rebelde — com a Julie Andrews cantando a plenos pulmões que as colinas estavam vivas — ou clássicos da TV como Anne de Green Gables. Essas sessões não eram apenas um refúgio do calor escaldante; para pais imigrantes tentando a sorte de uma vida nova, era uma forma de compartilhar os sonhos e as perspectivas que eles imaginavam para nós. Hoje, já adulto, guardo essas obras no peito como uma herança.

Isso acaba levantando uma questão quase filosófica sobre o que exatamente nós herdamos culturalmente em casa e o que, afinal, define um “filme de pai”. Trocando uma ideia com amigos que também já batem ponto na paternidade, a gente percebe que essa herança assume várias formas. Tem quem se lembre daquela aura de evento sagrado ao entrar no cinema, aos seis anos de idade, para ver O Retorno de Jedi, absorvendo a catarse do Luke Skywalker se declarando um Jedi como o pai antes dele. Outros já têm um gosto que pende mais para os clássicos absolutos do cinema, repassando para os filhos obras primas como Casablanca, A Primeira Noite de um Homem e o caos irônico de Dr. Fantástico.

Mas a quintessência do cinema paterno, convenhamos, muitas vezes mora na ação. O famigerado “Filmazo de Pai” quase sempre envolve tramas de guerra, ficção histórica ou, basicamente, qualquer longa estrelado pelo Harrison Ford ou Denzel Washington. E quem nunca embarcou no projeto maluco de assistir a todos os filmes do James Bond em ordem cronológica com o coroa no sofá? Ouvir o Sean Connery encurralado perguntando e recebendo a clássica resposta:

— Você espera que eu fale? — Não, Sr. Bond. Eu espero que você morra.

Essa fixação pelo passado, por ícones pop e épocas que consumimos vorazmente, mas que muitas vezes nem chegamos a viver, é uma faca de dois gumes. Nós romantizamos o passado através da tela. E se você pudesse escolher uma década e um lugar específicos para morar, para onde iria? Para Eloise — ou melhor, Ellie —, a resposta não tem margem de erro: a Londres dos anos 1960. A magia em Noite Passada em Soho, filme que marca a primeira incursão real do diretor Edgar Wright no terror, é que a protagonista não apenas fantasia com essa nostalgia. Ela literalmente a vive todas as noites quando fecha os olhos, sendo transportada para o passado sob o ponto de vista de Sandie, uma aspirante a cantora com um magnetismo invejável.

Wright, famoso por comédias afiadas e por usar a música como motor narrativo puro (vide o espetáculo de montagem que é Em Ritmo de Fuga), pisa fundo no acelerador da estética londrina. Ellie (Thomasin McKenzie, de Jojo Rabbit) é uma garota do interior, recém-chegada na implacável metrópole britânica para estudar moda. Deslocada e longe de ser natural e “descolada” como sua colega de quarto Jocasta, Ellie aluga um quartinho decadente perto do Soho boêmio para tentar ter um pouco de paz. É na sua primeira noite ali que o portal do passado se abre.

Quando Ellie esbarra pela primeira vez com Sandie (interpretada por uma Anya Taylor-Joy perfeita, que simplesmente não erra nunca) saindo de um beco escuro e dando de cara com a fachada de um cinema exibindo um cartaz gigante de 007 contra a Chantagem Atômica, estrelado justamente por Sean Connery em 1965, a conexão com a nossa herança pop fica escancarada. É quase como se os “filmes de pai” estivessem espreitando nas esquinas dessa Londres onírica.

Fica até difícil saber quem idolatra mais os ícones sessentistas: a protagonista ou o próprio diretor. Wright recriou a lendária Swinging London de forma obsessiva nos cenários, no vestuário estonteante e na iluminação. Mas é a música que assume o papel de narradora. Logo na cena de abertura, vemos Ellie dançando no quarto com um vestido de jornal criado por ela mesma ao som de “A World Without Love”, do duo Peter and Gordon. A letra roga para ser trancada junto à sua solidão, enquanto a garota fuma um lápis fingindo ser Audrey Hepburn. Da mesma forma, quando sai da casa da avó rumo à capital, o faz embalada pela versão de “Don’t Throw Your Love Away” gravada pelos The Searchers.

As homenagens do cineasta à cultura pop britânica vão muito além das vitrolas e resgatam as próprias estrelas daquela era. Wright escalou uma constelação de ícones que nossos pais com certeza assistiram nas reprises de fim de semana. Temos Diana Rigg (sim, a Olenna Tyrell de Game of Thrones, mas eternizada como a Condessa Teresa, a melhor Bond Girl de todos os tempos) em seu último papel, vivendo a dona do apartamento de Ellie. Rita Tushingham de Doutor Jivago vive a avó da jovem. Margaret Nolan (outra lenda do universo Bond que esteve em Goldfinger) faz uma ponta como atendente de bar, e Terence Stamp (o eterno General Zod do Superman) surge como um figurão misterioso que parece carregar segredos sobre Sandie. Até o elenco mais novo não escapa: Matt Smith, que foi o Doutor em Doctor Who por quatro anos, interpreta o empresário que agencia Sandie pela noite londrina.

Claro que essa viagem lisérgica de nostalgia não sairia de graça. A vibrante Londres dos anos 60 logo revela que não é bem o que aparenta, e a trajetória de Sandie começa a tomar rumos sombrios que transbordam para a vida real de Ellie. O diretor é absurdamente hábil em manipular as pistas visuais para diferenciar o presente do passado, até o momento em que essas linhas do tempo se fundem e perdem completamente os limites em meio a sonhos lúcidos.

O quanto menos for dito sobre os desdobramentos do roteiro, melhor a experiência. Falando em atuações, Thomasin McKenzie é um talento em franca ascensão, mas em alguns momentos pesa um pouco a mão na tentativa de parecer a caipira inocente e assustada. Por outro lado, Anya Taylor-Joy engole a câmera e mostra por que é uma das atrizes mais requisitadas de Hollywood hoje. Totalmente hipnotizante, ela segura as pontas do filme mesmo quando o roteiro perde o freio — principalmente no terceiro ato, quando a direção decide trocar os brilhantes efeitos práticos por uma computação gráfica que quebra um pouco o encanto.

No fim das contas, a reflexão que fica é muito similar. Seja maratonando um clássico dos anos 90 como Matador em Conflito — onde o assassino vivido por John Cusack mata por dinheiro e volta para a reunião do colegial numa crise existencial — no sofá com o seu pai, ou mergulhando de cabeça nas ilusões perigosas do Soho, o cinema nos ensina algo valioso sobre o passado. Ele é um lugar fascinante para se revisitar através de discos arranhados e rolos de filme antigo, mas tentar viver lá de forma permanente pode acabar cobrando um preço alto demais.