O Sol em fúria e a polêmica tentativa de apagá-lo: o que está em jogo?

O astro-rei anda mais nervoso do que o habitual. Especialistas apontam que estamos atravessando o pico do máximo solar, um período de intensa atividade que tem desencadeado um número impressionante de manchas e erupções na superfície da nossa estrela. Curiosamente, enquanto o Sol demonstra sua força natural, governos e cientistas debatem, com cautela e financiamento milionário, a possibilidade artificial de “diminuir” o brilho solar como uma medida desesperada para frear o aquecimento global.

Um ciclo de alta voltagem

Para entender o cenário atual, é preciso lembrar que o Sol funciona em ciclos de aproximadamente 11 anos. Trata-se de uma dança complexa de campos magnéticos e movimento de plasma no interior da estrela, resultando em instabilidade na superfície. Esse fenômeno gera manchas solares e erupções capazes de lançar radiação no espaço, afetando desde satélites em órbita até sistemas de navegação e comunicação aqui na Terra.

Atualmente, vivemos o Ciclo Solar 25. Dados preliminares sugerem que ele já superou o anterior, o Ciclo 24 (que teve seu auge em 2014), em número de ocorrências. A percepção geral é de que o Sol está mais agitado do que há alguns anos, mas análises mais profundas indicam que essa disparidade pode estar relacionada à quantidade, e não necessariamente à intensidade bruta dos eventos.

A confusão dos satélites e a realidade dos dados

A comparação entre os ciclos solares esbarra em um obstáculo técnico: a mudança nos equipamentos de medição. Desde 1974, satélites monitoram os níveis de raios X das erupções, classificadas em classes C, M e X — sendo esta última a mais potente. Entre 2010 e 2020, os satélites GOES-14 e 15 exigiram uma recalibração que, na prática, inflou os registros.

Com a entrada em operação do GOES-16, pesquisadores descobriram que a calibração original estava correta e a intermediária, equivocada. Feitos os ajustes reversos, o cenário se clareou. O Ciclo 25 está, sim, ganhando em volume de erupções das classes C e M, mas as explosões mais violentas (classe X) ainda foram mais comuns no ciclo passado. Ou seja, temos um Sol mais ativo, mas não necessariamente mais perigoso até o momento.

A aposta arriscada no escurecimento global

Enquanto monitoramos essas explosões naturais, uma discussão paralela ganha força nos corredores do poder: a geoengenharia. O governo britânico emitiu alertas sobre os riscos de modificar a radiação solar para combater as mudanças climáticas. Sir Alan Campbell, líder na Câmara dos Comuns, declarou que os ministros não são favoráveis à prática, citando as incertezas ambientais que ela acarreta.

No entanto, há uma contradição evidente. Apesar do discurso cauteloso, a Agência de Pesquisa e Invenção Avançada (Aria) do governo aprovou recentemente 56,8 milhões de libras para financiar projetos de “resfriamento climático”. Entre as propostas, estão testes para disparar névoa de água do mar no céu, visando aumentar a refletividade das nuvens, e experimentos com poeira mineral na estratosfera.

Entre a ficção científica e o perigo real

O tema, frequentemente associado à ficção científica e teorias da conspiração, chegou ao debate parlamentar. A deputada Sarah Coombes questionou como o Reino Unido pretende cooperar internacionalmente para regular tais experimentos, dado o potencial de efeitos transfronteiriços. O medo tem fundamento científico: um relatório recente da Royal Society alertou que desviar a luz solar poderia desencadear secas e furacões, piorando o cenário climático em vez de aliviá-lo.

O professor Jim Haywood, da Universidade de Exeter, foi categórico ao afirmar que alterar o clima em um local pode causar desastres em outro. A injeção de aerossóis na estratosfera do hemisfério norte, por exemplo, poderia impactar as monções tropicais e levar secas severas à África subsaariana.

Quem controla o termostato?

Apesar dos riscos, testes de campo estão sendo propostos, inclusive no Canadá, para verificar se é possível espessar o gelo marinho do Ártico. Embora erupções vulcânicas no passado tenham provado que partículas no ar podem resfriar o planeta, a aplicação artificial dessa lógica divide a comunidade científica. Alguns veem como a única solução rápida; outros, como uma aposta imprudente.

Mary Church, do Centro de Direito Ambiental Internacional, resume o dilema: intervenções desse tipo são inerentemente imprevisíveis e arriscam quebrar ainda mais um sistema climático já fragilizado. Além disso, a implantação criaria vencedores e perdedores globais, levantando a questão central e inquietante de quem, afinal, terá o direito de controlar o termostato do mundo.