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Por: Luelyn Jockyman, filha de Sérgio Jockyman
Parece que existe uma ordem natural das coisas, afinal de contas. Os filhos ficam, os pais, se vão. Os pais, cuidam dos filhos durante a vida. Os filhos cuidam dos pais quando ficam velhos. É fácil falar, mas é difícil viver.
Eu cuidei do meu pai durante mais ou menos 6 meses. Não interessam os motivos, mas ele veio morar comigo. De uma hora para outra, eu tinha que saber qual remédio ele tinha que tomar, em qual horário, o que ele podia comer, e se ele estava tomando banho (!). Pai, tu dormiu de pijama? Pai, come toda comida, até o fim! Pai, senta pra fazer xixi! Se alguém me contasse, não acreditaria. É surreal. Ele era uma pessoa conhecida. Foi, durante uma época da vida, mas mesmo que não fosse, os pais são sempre criaturas fortes, que comandam a casa, que metem medo, que a gente respeita. Que a gente admira. De repente eles perdem a dentadura no restaurante? Ou põe a camisa do lado do avesso? Quem é essa pessoa que eu tô cuidando afinal?
Ah, lembrei! Pai, a gente tem a biografia do Churchil? Claro, filha, mas ele era uma pessoa, blabla, blabla, blabla... Esse eu conheço, meu pai! Ele tem 10 mil livros! Ele leu uns 7 mil deles (hoje eu sei, não foram todos, descobri isso porque alguns deles tem as páginas coladas, há!). Ele sabe coisas que eu não sei. Mas, ele levanta e anda arrastando os pés, e eu preciso correr para ajudá-lo a subir o degrau. Meu pai, esse velhinho frágil, de andar incerto, humilde, delicado, carinhoso.
Meu pai, que não me deixou ser jornalista porque eu não lia jornal (coberto de razão). Meu pai que jogou uma caneta na minha cara quando eu escrevi uma matéria que ele achou mediocre. Meu pai, que me chamou de burra quando eu decidi ser veterinária e passava noites em claro estudando. Meu pai. Um pai.
Ele fez isso, mas ele me abraçou muitas vezes quando eu precisei. Ele me acolheu, e me disse que me amava, quando era só o que eu queria ouvir. Ele me ensinou a jogar crapô, e xadrez. E jogou comigo mil vezes, e ganhou (ele era muito competitivo, mesmo com uma menininha de 10 anos). Ele me ensinou que São Paulo era maravilhosa. Que o Le Casserole era O restaurante pra um jantar romântico. Que ficção científica é tudo! Que champagne francês é uma das melhores coisas do mundo! Que sábado a noite é especial e merece um jantar a altura. A amar cinema. Ele me fez, quem eu sou.
Por isso talvez, eu tenha cuidado dele 47 dias no hospital. E fiquei feliz por ter feito isso. Eu vi ele achar que ia morrer e respirar mal, depois melhorar. Eu vi ele ficar acabado depois de uma hemodiálise. E outra, e outra, e outra. Eu vi ele ter esperança em mudar para diálise peritoneal. Eu vi também ele ter uma septcemia e ter alucinações. Mas já aviso, que alucinações de escritor são mais, ãh, criativas. Tinha uma TV ligada no quarto dele, junto com outros 3 pacientes. No dia da posse da Dilma a TV virou 24 horas. Acho que ele ouvia. Eu levei a Veja que ele pediu para ler ( na hora que dei na mão dele ele folhou ela inteirinha de cabeça pra baixo. Eu leio de trás pra frente, mas essa foi nova...). Na Vejinha SP tinham destaques de personalidades por causa do aniversário da cidade. Um deles era Olavo Setúbal, que ele deve ter visto. Quando cheguei ao hospital uma manhã, não lembro o dia, ele tava apavorado. Disse que a Dilma tinha nomeado o Setúbal para ministro, e que os militares estavam por trás dele,e tinham dado um golpe e deposto ela. Veio um cara de Brasília e demitiu toda a enfermagem do hospital, e a Unicamp iria fechar. O problema dele é que ele não lembrava meu telefone pra eu ir buscar ele. Os colegas de quarto eram coadjuvantes contratados pela Globo. Nesse dia eu chorei. Muito. Mas, lavei o rosto e voltei pro lado dele.
Ele piorou. Ele perdeu as esperanças na diálise peritoneal quando o cateter entupiu e ele voltou para hemodiálise. Ele me perguntou: o que deu errado? Pai, porque tu acha que alguma coisa deu errado (chorando e berrando pra dentro)? Silêncio. Dele. Meu. Eu tenho que deixar de ser egoísta e ele tem que descansar. 80 é bastante. Pai, já vou indo. Filha, já devia ter ido.
Não vi mais ele acordado. Fiquei ali, segurando a mão dele, olhando o monitor cardíaco. Horas. Demora. Mas, vi que o traçado mudou. Vai ser agora. Vou descer pra comer uma coisa, quando eu voltar, acabou. Desci. Comi. Voltei. Tá acontecendo. A freqüência tá baixando. Ele tá morrendo. Morreu._________________.
80 não é o bastante. Pra o meu pai, pra qualquer pai.
Uma filha, sem pai.
A autora do texto acima, Luelyn Jockyman, é moradora do distrito de Sousas, jornalista e médica veterinária da Clínica Animaletto localizada em Sousas.
Luelyn é filha de Sérgio Jockyman, jornalista, romancista, poeta, dramaturgo brasileiro e teatrólogo.
Sérgio nasceu em 1930, em Palmeiras das Missões-RS e faleceu em 16 de fevereiro de 2011, aos 80 nos de idade, no Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas, onde estava internado desde 29 de dezembro do ano anterior, para tratar uma insuficiência renal crônica. Foi cremado na cidade de São Paulo.
Nos últimos meses de vida morava na casa da filha em Campinas.
Sérgio Jockyman
Seu pai, um engenheiro agrônomo e farmacêutico, e sua mãe, professora primária, tiveram uma forte influência para que nele despertasse o gosto pela literatura.
Jornalista, romancista, poeta, dramaturgo brasileiro e teatrólogo, Jockyman teve, em 1955, o seu primeiro texto montado em Porto Alegre: Caim. No ano seguinte publicou Poemas em Negro.
O sucesso chegou em 1962 com a peça Boa Tarde Excelência, ganhando projeção nacional. Vieram outros sucessos teatrais: Marido, Matriz e Filial, Lá, Treze.
Em 1969 estreou na televisão escrevendo os episódios de Confissões de Penélope, na TV Tupi, com Eva Wilma. No mesmo ano escreveu sua primeira novela: Nenhum Homem É Deus.
Com O Machão, Jockyman atingiu o sucesso na TV, podendo apresentar sua linguagem popular - predominantemente em suas peças - para satirizar situações de ordem estabelecida.
Ainda escreveu para vários jornais gaúchos, como o Zero Hora, a Folha da Tarde e o Vale dos Sinos, e foi candidato a prefeito de Porto Alegre em 1985, pelo Partido Liberal.
Nas eleições de 1988 foi candidato à prefeitura de Porto Alegre pelo Partido Liberal.
Aguardem...

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