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Por Érika Marinho, às 9h33
DUHJM Publicidade e ComunicaçõesEmpresa & Paraíso
Sebastião de Almeida Júnior
De tanto ouvir falar de um “Caminho Suave” para o êxito nos negócios, outro dia me vi na necessidade de consultar o dicionário do Aurélio e conferir o significado da palavra “empreender”. Ali encontrei, entre outros termos, o seguinte: “Deliberar-se a praticar empresa laboriosa e difícil”.
Então por que há quem se esforce tanto para passar a idéia de que uma determinada empresa se constitui em ambiente permanentemente tranquilo e descontraído?! Algo próximo de um paraíso terrestre, isento de preocupações, onde a supervisão deixou de ser um fardo, pois cada contribui com base na sua interpretação das metas e diretrizes.
Seu objetivo seria provocar a inveja nos seus concorrentes ou induzi-los ao erro, tal qual os moleques mais velhos de antigamente (daquele tempo quando nem se ouvia falar de “politicamente correto”) faziam pulando as grandes poças d’água e incentivando os menores a imitá-los só para rir quando saiam do outro lado com seus pés e roupas encharcados?
Ou (quem sabe?) alguns acreditem que, tratando o assunto desta maneira, atraiam bons fluídos para suas organizações; ou, no mínimo, profissionais com características excepcionais, isto é, capazes de manter todas as ameaças longe de seus locais de trabalho?
Trabalho. Eis outra palavra cuja origem merece ser lembrada: refere-se a um instrumento de suplício, tortura e morte; utilizado durante o período medieval, denominado “tripalium”. Agora, no entanto, há quem queira vincular esta atividade somente ao prazer. Ao mesmo tempo em que insistem em proclamar métodos através dos quais se aprende brincando, enquanto (todo mundo sabe) brincando se aprende somente a brincar.
Nas cerca de cinquenta empresas onde tenho atuado durante os últimos trinta anos, os métodos somente foram úteis para os profissionais desenvolverem suas competências e realizarem suas tarefas quando havia uma dose considerável de seriedade da parte destes empenhados em sustentar um estilo de vida vinculado à competição permanente. O que significa: estar sujeito a vitórias e derrotas, apesar de ninguém saber ao certo como irá se sair diante de umas e de outras.
Nestas, as atividades ordinárias dominavam o cenário e, através da repetição, os dedicados conquistavam a excelência, fazendo o melhor uso possível dos recursos disponíveis para integrar suas organizações às cadeias de suprimento da forma mais saudável possível, ou seja, com o mínimo de perdas e atritos.
Isto não lhes garantia o conforto da ausência de problemas e conflitos. Ao contrário, alertava para o fato de o planejamento fazer parte de seu cotidiano. E onde há planejamento, há problemas, pois nem tudo ocorre conforme planejado. Se não fosse assim, deveria se chamar “adivinhação”!
Os conflitos, por outro lado, podem ser consequência das diferentes visões diante dos problemas e oportunidades. Não significa que uns são “mocinhos” enquanto os outros são “bandidos”. Todos são Humanos apegados a suas crenças e expectativas. Alguns reagem com veemência quando contrariados. Resta saber até que ponto isto pode ajudar ou atrapalhar a equipe a alcançar seus objetivos. Só não se pode prosperar negando a existência dos conflitos e dos problemas. Antes é necessário reconhecê-los e tratar das suas causas.
É claro: sempre constará para o(a) Leitor(a) a alternativa de imaginar que esta forma de ver decorre de minha atuação estar vinculada a estes fatores (problemas e conflitos) na busca de superação através do consenso e da solução, atividades próprias dos consultores de desenvolvimento gerencial & organizacional.
Mas eu gostaria de deixar a seguinte mensagem: as empresas não se constituem nem em infernos nem em paraísos terrestres. Nestas, as alegrias e tristezas existem nas mesmas proporções que em outros lugares. No entanto, se os profissionais ficarem esperando que as soluções caiam dos céus, a empresa não tem a mínima chance de sobrevivência.
É claro que algumas empresas conseguem, durante determinados períodos de tempo, lucros excepcionais e podem proporcionar regalias e confortos para seus colaboradores. Já vi, por exemplo, empresas onde há áreas dedicadas a socialização e lazer que podem ser frequentadas de acordo com a conveniência de cada um. Em outras, os cardápios dos refeitórios fazem inveja para os cardápios de muitos restaurantes abertos ao público. Em outras ainda os cursos oferecidos aos empregados em geral são de qualidade excepcional, incluindo estágios em diferentes plantas no Brasil e no exterior. E esta retribuição é louvável.
(Por outro lado, já testemunhei situações diferentes tanto em empresas lucrativas como naquelas que vivem situação crítica. Um exemplo de mesquinharia: Em uma empresa, o leite servido pela manhã aos seus colaboradores vinha de uma das fazendas do grupo. A este era adicionada uma proporção significativa de água como forma de reduzir custos. Um exemplo de descaso: Uma nova ala de uma fábrica foi inaugurada para abrigar cerca de quarenta operadores de máquinas, havendo somente dois banheiros femininos e dois masculinos para atender a todos. Isto sem mencionar os diversos casos em que os salários não são pagos em dia.)
Nenhuma delas, no entanto, se qualifica para servir de modelo para todos os empresários e executivos. Ou melhor: a visão de modelo pode gerar frustração para muitos, principalmente num país onde a infra-estrutura não corresponde ao volume de impostos que os governos arrecadam, enredando o país em condição não atrativa para empresas voltadas para pesquisa e desenvolvimento porque não dispõem, dentre outras coisas, de logística e mão de obra qualificada.
Se preparar para a disputa de vagas numa destas empresas lucrativas é uma opção, mas a conquista não depende só de um modelo de corte de cabelo nem do domínio de certo dialeto empresarial; às vezes, nem se limita a competências, pois pode depender de indicações.
É recomendável lembrar sempre que a conquista de uma oportunidade de emprego não é um fim, é um meio para cada um reconhecer seus talentos e limitações; conhecendo, ao mesmo tempo, quão mesquinho ou generoso o Humano pode ser, apesar de alguns se considerarem angelicais. Afinal, empresas são muitas, mas a vida de cada um é única. Seu sentido depende, em grande parte, das decisões que o indivíduo toma diante da realidade e não dos modelos assumidos como ideais.
Algumas empresas passarão de uma geração para outra. Outras não conseguirão sobreviver a alguns anos. O tempo de cada pessoa, no entanto, é precioso demais para ser desperdiçado buscando aquilo que não existe. Ou pior, achando-se inferior ao demais tomando como base somente aquilo que dizem fazer.
Existem métodos capazes de facilitar o aprendizado e a superação de problemas e conflitos. Mas não existem soluções prontas e acabadas. As dificuldades são vencidas quando alguém ve sentido naquilo que faz com paciência, persistência e disciplina. Não durante um dia, mas durante toda uma carreira.
Professor convidado do Instituto de Economia da UNICAMP, autor de seis livros sobre temas empresariais.
e-mail: consultor@almeidaecappeloza.com.br
telefone (19) 3241.3535
www.almeidaecappeloza.com.br
www.excemp.com.br
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